Em duas décadas, Putin aperfeiçoou uma arte sombria: transformar instituições em espelhos do seu poder. Primeiro, a academia. Depois, a mídia. Agora, até Deus fala a língua do Kremlin.
Tem uma coisa curiosa sobre Vladimir Putin que poucos param para pensar: antes de se tornar o autocrata que conhecemos hoje, ele precisava provar que era intelectualmente capaz. E como fez isso? Plagiando. Descaradamente.
Em 1997, Putin submeteu sua dissertação de doutorado em economia na Universidade Estatal de Mineração de São Petersburgo. O título era pomposo: "Planejamento Estratégico da Reprodução da Base de Recursos Minerais da Região sob Condições de Formação de Relações de Mercado". Parece impressionante, não é? Até você descobrir que o trabalho era uma fraude monumental.
Pesquisadores da Brookings Institution descobriram em 2006 que Putin copiou cerca de 16 páginas das 200 de sua dissertação de outras fontes. Mas espera, fica melhor. Uma testemunha revelou que Putin usou a tecnologia de "recortar e colar" disponível nos anos 1990 — tesoura, cola e fotocopiadora — para montar trechos inteiros. Não estamos falando de "inspiração acadêmica" ou "referências mal citadas". Estamos falando de plágio descarado, do tipo que derruba qualquer aluno de graduação em qualquer universidade minimamente séria.
E Putin nunca confirmou nem negou. Simplesmente ignorou. Porque quando você tem o poder, a verdade se torna opcional.
Agora aqui está o ponto: esse plágio não é uma curiosidade biográfica. É um sintoma. É o manual de operações de um homem que entendeu cedo que a realidade pode ser moldada, que fatos podem ser fabricados, e que instituições que deveriam ser guardiãs da verdade podem ser compradas, intimidadas ou simplesmente controladas. E nenhuma instituição ilustra melhor essa captura do que a Igreja Ortodoxa Russa.
Você já viu a cena? Padres ortodoxos, com suas longas barbas e paramentos dourados, aspergindo água benta sobre mísseis balísticos intercontinentais. Tanques de guerra recebendo bênçãos como se fossem bebês em um batismo. Bombardeiros nucleares e seus tripulantes recebendo bênçãos religiosas antes de cada missão. Não é ficção científica distópica. É a Rússia de Putin em 2025.
Sacerdotes abençoam publicamente equipamentos militares e soldados que vão para as linhas de frente. E não estamos falando de uma ou outra benção discreta. A Igreja Ortodoxa Russa desenvolveu toda uma narrativa de que os defensores nucleares da Rússia estão fazendo "o trabalho de Deus". Pense nisso por um segundo: armas projetadas para aniquilar cidades inteiras, capazes de causar um inverno nuclear e extinguir a civilização, sendo consagradas em nome do Deus cristão.
A ironia seria cômica se não fosse trágica. Jesus Cristo — aquele mesmo que disse "amai os vossos inimigos" e "oferecei a outra face" — agora, aparentemente, abençoa ogivas nucleares. Como chegamos aqui?
Para entender como a Igreja Ortodoxa se transformou em departamento de propaganda do Kremlin, precisamos falar do Patriarca Kirill. Oficialmente, ele é o líder espiritual de milhões de cristãos ortodoxos. Oficiosamente? Bem, a história é um pouco mais complicada.
Arquivos federais suíços recentemente desclassificados confirmaram que o Patriarca Kirill trabalhou para a KGB nos anos 1970, quando vivia em Genebra. Sob o codinome "Mikhailov", sua missão era infiltrar e influenciar o Conselho Mundial de Igrejas. Não é teoria da conspiração. São documentos oficiais.
E olha, você até poderia argumentar que isso foi há 50 anos, que as pessoas mudam. Mas aí você percebe que Kirill descreveu o governo de Putin como "um milagre de Deus". E que toda a estrutura da Igreja Ortodoxa Russa hoje funciona como braço ideológico do estado.
Um elemento central da doutrina de Kirill é a crença no chamado "Mundo Russo", que defende a criação de uma única "nação pan-russa" incluindo Rússia, Ucrânia e Belarus, sob controle da Igreja Ortodoxa Russa. Conveniente, não? A religião providencialmente justificando as ambições imperialistas do Kremlin.
Depois que Putin chegou ao poder em 2000, a Igreja Ortodoxa gradualmente se alinhou com sua linha partidária, virando as costas para medidas impopulares e seus clérigos começaram a consagrar mísseis nucleares chamando-os de "anjos guardiães" da Rússia e abençoar a perseguição de dissidentes.
A transformação da Igreja em ferramenta de propaganda não aconteceu do dia para a noite. Foi um processo meticuloso. Hoje, o Departamento Sinodal para Cooperação com as Forças Armadas usa sua conta no Telegram para conduzir uma campanha de propaganda pró-guerra, relatando sobre a situação nas linhas de frente.
Pense na genialidade perversa disso: você não está apenas mandando jovens para morrer em uma guerra imperialista. Você está dizendo que eles vão morrer fazendo o trabalho de Deus. Que cada bala disparada, cada bomba lançada, cada vida ceifada é santificada pelo Todo-Poderoso.
Chamar a invasão da Ucrânia de "guerra santa" justifica e moraliza essa expansão nacionalista imperialista além das fronteiras da Rússia. É guerra cultural no sentido mais literal: usar a religião como arma para mobilizar a população, silenciar dissidentes e transformar agressão em dever sagrado.
E funciona. Funciona porque a Igreja, que deveria ser contraponto moral ao poder político, foi completamente cooptada. Funciona porque quando o padre da sua cidade abençoa os tanques, quando o patriarca diz que Putin é enviado de Deus, quando toda a estrutura institucional religiosa valida a narrativa oficial, resistir deixa de ser apenas um ato político — vira apostasia.
Enxerga o padrão? Seja plagiando uma dissertação acadêmica, seja transformando uma instituição milenar em máquina de propaganda, Putin sempre seguiu o mesmo roteiro: identificar instituições que conferem legitimidade — universidades, igrejas, mídia — e corrompê-las até que sirvam ao poder.
A diferença é que, enquanto o plágio acadêmico era uma mentira privada que afetava apenas sua própria credibilidade, a captura da Igreja Ortodoxa é uma mentira pública em escala industrial. É a manipulação sistemática da fé de milhões de pessoas para fins políticos.
Mas aqui está o que ninguém quer admitir: Putin não inventou esse jogo. Ele só é péssimo em disfarçar. Todo estado — TODO ESTADO — opera com a mesma lógica fundamental: concentrar poder, neutralizar contrapesos e transformar instituições independentes em extensões do aparato governamental.
A diferença entre a Rússia e as democracias ocidentais não é de natureza, é de grau. Putin abençoa mísseis com padres ortodoxos? O Ocidente realiza suas próprias cerimônias e discursos de legitimação antes de bombardear outros países. Putin controla a narrativa acadêmica? Universidades públicas em todo o mundo dependem de verbas estatais e contratos militares — e sabem exatamente quais pesquisas não devem fazer se quiserem continuar recebendo financiamento.
O estado — qualquer estado — precisa se legitimar. E para isso, precisa capturar as instituições que moldam como as pessoas pensam: educação, religião, mídia, cultura. Não por malícia particular de Putin ou de qualquer líder específico, mas porque é assim que o poder centralizado funciona. Ele não tolera competição na produção de narrativas.
O mais inquietante é que funciona porque toca em algo essencialmente humano: o desejo de que a dor e o sacrifício tenham um significado maior. Putin não inventou essa necessidade — apenas a capturou e a transformou em combustível para sua máquina de poder.
Mas nem tudo está perdido. Alguns membros do clero propuseram banir a benção de armas nucleares, argumentando que "a benção de armas militares não está refletida na tradição da Igreja Ortodoxa e não corresponde ao conteúdo do Rito". São vozes corajosas tentando resgatar o que restou da integridade espiritual da instituição.
Mas são vozes minoritárias, nadando contra uma maré avassaladora de propaganda estatal, pressão política e anos de doutrinação sistemática.
O Patriarca Kirill e sua estrutura eclesiástica não são vítimas de Putin. São cúmplices. Escolheram poder temporal sobre integridade espiritual. Escolheram palácios e influência sobre profecia e verdade.
A história de Putin — do plágio acadêmico à militarização da fé — nos ensina algo fundamental sobre como a autocracia moderna funciona. Não é apenas sobre força bruta ou repressão policial. É sobre controlar as narrativas, sequestrar as instituições que dão sentido à vida das pessoas e transformar até o sagrado em ferramenta de dominação.
É sobre criar um universo onde a verdade não importa mais, onde fatos são o que o poder diz que são, onde até Deus pode ser recrutado para abençoar uma guerra.
E talvez a maior mentira de Putin não seja o plágio acadêmico nem mesmo a transformação da Igreja em departamento de guerra. A maior mentira é fazer as pessoas acreditarem que não há alternativa. Que esse é o preço da estabilidade. Que questionar é trair não apenas o estado, mas a própria vontade divina.
Mas há sempre uma alternativa. Sempre houve. E ela começa quando paramos de aceitar que instituições — sejam acadêmicas ou religiosas — possam ser corrompidas sem consequências. Quando lembramos que a verdade existe independente do que ditadores e seus patriarcas de estimação decidem proclamar.
Quando os padres param de abençoar mísseis e voltam a abençoar pessoas. Quando as igrejas param de servir ao César e voltam a servir ao povo. Quando a fé se liberta do poder e volta a ser o que sempre deveria ter sido: um refúgio da tirania, não uma ferramenta dela.
Putin escancara como o estado corrompe tudo o que existe, e é incapaz de respeitar até mesmo o sagrado. Muita gente diz que a fé e o estado não podem se misturar, mas a verdade é que nada deveria se misturar ao estado, pois ele é uma doença infecciosa que contamina e adoece tudo o que toca.
Até que o povo russo perceba que o estado é essa laranja podre que está contaminando todas as demais frutas, Putin e Kirill continuarão seu show macabro. Os ex-expiões da KGB, vestindo máscaras diferentes, servindo ao mesmo projeto: transformar seres humanos em súditos, fé em propaganda, e verdade em qualquer coisa que mantenha o poder nas mãos de quem já o tem.
E se você acha que essa história é só sobre a Rússia, preste atenção. O manual está aí. Pronto para ser copiado. Plagiado, se preferir. Afinal, Putin sempre foi bom nisso.
https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/plagio-academico-guerra-cultural-putin-manipulacao-verdade/
https://outrider.org/nuclear-weapons/articles/blessing-bombs-putins-altar-boy-and-twisting-russian-orthodoxy-sanctify
https://www.euronews.com/2023/02/06/patriarch-kirill-worked-for-the-kgb-in-the-1970s-swiss-media-reports
https://en.wikipedia.org/wiki/Patriarch_Kirill_of_Moscow