Nova moeda do BRICS promete SUPERAR o DÓLAR, mas apenas repete os ERROS de moedas fiat

O BRICS quer um mundo menos dependente do dólar, mas igualmente dependente do estado.

O BRICS, um grupo no qual se pretendia reunir economias emergentes, mas acabou por se tornar um reduto de países ditatoriais, está novamente tentando quebrar a hegemonia do dólar com sua proposta sobre a criação de uma nova moeda.

A ideia consiste em criar caminhos que permitam comércio e liquidação sem passar pelo dólar. Para os Estados Unidos, tudo isso soa como um desafio direto ao que se convencionou chamar de petrodólar, o pilar que há décadas sustenta a supremacia americana no comércio global. Mas as recentes sanções econômicas e tarifaços promovidos por Trump, além do uso do sistema financeiro como instrumento de pressão política, despertaram o alerta em diversas nações. O congelamento das reservas russas após a guerra da Ucrânia, por exemplo, revelou que mesmo ativos depositados em bancos ocidentais não estão a salvo de decisões unilaterais. Para países que pretendem manter alguma autonomia, depender do dólar passou a ser um risco.

Como reação, cresce o interesse por alternativas, como acordos bilaterais em moedas locais e aumento da compra de ouro. Entre essas iniciativas surge o BRICS com a Unit, o protótipo de moeda do bloco que promete funcionar como uma unidade de conta não soberana, inspirada nos Direitos Especiais de Saque do FMI, mas restrita ao ecossistema do bloco.

A participação do dólar nas reservas globais já teria caído para menos de 40%, o menor índice em mais de duas décadas, enquanto o ouro volta a brilhar como reserva segura. Economistas como Michael Hudson e Paulo Nogueira Batista Jr. enxergam nessa movimentação uma tentativa legítima de restaurar o equilíbrio perdido entre as nações. Contudo, mesmo os defensores dessas novas ideias admitem o risco de retaliação. Criar uma moeda alternativa é mexer nas estruturas do poder mundial, e nenhum império cede espaço sem reagir.

À medida que o sistema atual se mostra cada vez mais instável, o custo da inércia se torna maior do que o da ousadia.

Mas antes de analisar a moeda em si, vale o esforço de olhar para o conceito de dinheiro, essa entidade tão cotidiana que passa despercebida por muitos de nós. Ele está em todos os lugares, em números nas telas de celular ou notas amassadas no bolso, mas quase ninguém se dá ao trabalho de pensar no que ele realmente é. Dinheiro é mais do que papel colorido ou dígitos em uma tela, é uma convenção social, um acordo de que algo sem valor intrínseco pode ter valor para representar trocas.

O dinheiro cumpre três funções fundamentais: primeiro, ele é reserva de valor, permitindo que o trabalho de hoje se transforme em poder de compra amanhã. Segundo, ele é uma unidade de conta, uma régua simbólica que mede e compara o valor das coisas. Terceiro, e mais importante, ele é um meio de troca que simplifica o comércio e dá ritmo às economias. Sem ele, o mercado ainda estaria preso no velho sistema de escambo, onde itens eram trocados diretamente por outros itens. 

O dinheiro evoluiu de forma quase orgânica, acompanhando a própria complexidade das sociedades. No começo, era dinheiro-mercadoria: ouro, sal, gado, tudo que possuía valor em si mesmo e podia circular. O problema é que ouro não se divide facilmente, e não é simples comprar pão na padaria da esquina usando bois como troca. Veio então o dinheiro representativo, papéis que valiam o que prometiam, certificados que garantiam uma equivalência em metais guardados em cofres. Até que, por fim, o mundo se rendeu ao dinheiro fiduciário, aquele que não vale pelo que é, não tem lastro em nada de valor, mas que, por imposição estatal, todos usam em suas trocas.

Para funcionar, o dinheiro precisa atender a critérios objetivos. Deve ser durável, capaz de resistir ao tempo e ao manuseio. Portátil, para que circule com facilidade. Divisível, para se adaptar a transações de qualquer tamanho. Uniforme, para que cada unidade seja indistinguível das outras. Precisa também ter oferta limitada, pois abundância demais mata o valor gerando inflação. E, por fim, deve ser amplamente aceito, seja espontâneamente, pela confiança coletiva, ou coercitivamente, pelo poder do estado.

No caso das moedas FIAT, de curso forçado, governos e bancos centrais decidem quanto ela vale, quanto dela deve existir e quem pode emiti-la. O papel do cidadão é apenas acreditar e usar. Essa dependência de confiança institucional explica tanto a força quanto a fragilidade das moedas nacionais. O que sustenta o dólar, o euro ou o real não é o metal, é a crença de que os gestores do banco central farão uma boa gestão da moeda e não ligarão as impressoras no 220 para desvalorizar o seu patrimônio. Esse, como todos nós sabemos, não é lá o melhor dos lastros.

Na era digital, o dinheiro tem se tornado uma abstração numérica que viaja por sistemas bancários e servidores na nuvem. O surgimento das criptomoedas, como o Bitcoin, é uma resposta direta a essa transformação. Elas tentam eliminar o intermediário e devolver à matemática o papel que atualmente é do Estado. Mas agora que temos todos os critérios objetivos em mãos, podemos finalmente analisar a moeda do BRICS, e ver se ela atende aos critérios que uma boa moeda deve atender.

O Unit não tem como função criar uma nova moeda global no sentido tradicional, mas um instrumento de liquidação digital que permita aos países do bloco realizar transações sem passar pelo dólar. Você não vai usar Unit para fazer suas compras do dia a dia, essa moeda seria usada por governos e bancos para fazer acordos internacionais sem o dólar.

O Unit seria lastreado em uma combinação de ativos, sendo: 40% em ouro físico e 60% em uma cesta das principais moedas nacionais do bloco: real, yuan, rupia, rublo e rand. Seu valor se ajustaria diariamente, refletindo as variações dessas moedas em relação ao ouro. Na teoria, isso daria à nova unidade um equilíbrio entre estabilidade e flexibilidade, evitando a volatilidade típica de moedas puramente fiduciárias.

A moeda funciona como uma ferramenta técnica, usada por bancos centrais e instituições financeiras para compensar transações interestatais. Quando colocamos o Unit à prova diante dos critérios que definem uma boa moeda, a realidade se torna bem menos utópica do que a propaganda do bloco quer que você pense. Como meio de troca, ele falha logo de início. Sua função está confinada ao ambiente institucional, o que o torna irrelevante para o comércio cotidiano. Como unidade de conta, tampouco cumpre seu papel: ninguém calcula salários, preços ou contratos privados em Units. O mundo real ainda opera em reais, yuans e rublos. Isso levanta problemas sérios para a capacidade de precificação que a moeda do BRICS terá.

No quesito reserva de valor, o lastro em ouro parece promissor, mas é diluído quando observamos a presença de moedas fiduciárias no cesto. O valor do Unit depende das políticas monetárias dos próprios países que ele tenta proteger das influências externas. Moedas como o Rublo perderam quase todo o seu valor fora da Rússia quando Putin invadiu a Ucrânia, mas mesmo assim os BRICS insistem em usar um ativo decadente como lastro. Além disso, a emissão e a oferta não seguem regras imutáveis. O controle político sobre o instrumento continua tão forte quanto em qualquer moeda estatal.

Do ponto de vista técnico, existem méritos. O formato digital elimina o desgaste físico e garante durabilidade quase infinita, divisibilidade precisa e quase impecável e portabilidade, sendo estes os pontos fortes dessa moeda. Mas como todos os pontos fortes advém do fato da moeda ser digital, esse fato remove todo o mérito do BRICS. Qualquer um pode criar uma moeda digital com os mesmos atributos. Até seu primo de 12 anos consegue em uma tarde fazer uma memecoin com os mesmos atributos usando apenas um computador comum. 

Já a fungibilidade, que é a capacidade de cada unidade ser intercambiável sem distinção, também sofre com a falta de transparência. Num ambiente em que bancos centrais controlam a emissão e as regras de uso, sempre há o risco de que algumas transações sejam tratadas de modo diferente de outras. E a aceitabilidade, o ponto crucial, é quase nula fora do círculo dos governos. No fim das contas, o Unit é menos uma revolução e mais uma reformulação do mesmo modelo de moeda fiduciária que você usa todos os dias. Ele tenta escapar do dólar, mas não do princípio do controle estatal. É apenas mais uma ferramenta que será usada por Estados autoritários para controlar suas economias.

O atual sistema financeiro foi pensado unicamente para redistribuir renda da classe produtiva para a improdutiva. Governos fazem isso aumentando a vigilância sobre sistemas de pagamento para garantir a taxação, ou por meio da desvalorização de suas moedas, aplicando o imposto inflacionário por meio do efeito Cantillon. A única maneira de se blindar contra a espoliação do seu patrimônio é usando uma moeda de verdade, que exceda em cada um dos pontos que já citamos em nossa análise. Para nossa sorte, em 2009 foi criada uma moeda capaz de cumprir esse papel, o Bitcoin. Sua existência não depende de acordos diplomáticos, mas da matemática pura. E quando analisamos seus atributos segundo os mesmos critérios que aplicamos ao dinheiro tradicional, o contraste é brutal.

A escassez do Bitcoin é definida em código. O protocolo define um limite fixo de 21 milhões de unidades, e ninguém pode mudar isso sem consenso global. No critério de divisibilidade, cada unidade de BTC pode ser dividida em 100 milhões de satoshis, o que permite desde transações bilionárias até o pagamento de um café. Na portabilidade, possui todas as vantagens de qualquer ativo digital somado a vantagens adicionais: atravessa fronteiras sem tarifas, ignora bancos e funciona 24 horas por dia. Tudo o que se precisa é de internet e uma chave privada.

A arquitetura do Bitcoin permite que ele dure enquanto houver computadores rodando o protocolo. Seu protocolo também garante fungibilidade a todas as unidades, que são equivalentes e intercambiáveis.

O único critério ao qual o Bitcoin ainda não atende de maneira satisfatória é a aceitabilidade. Apesar do crescimento exponencial, o Bitcoin não é usado amplamente no dia a dia. Poucos estabelecimentos o aceitam, e a maioria dos preços ainda é calculada em moedas fiduciárias. No entanto, seu alcance global e a facilidade de conversão o colocam em rota ascendente. O tempo e a necessidade podem fazer o resto.

Essa pouca aceitação ainda faz o Bitcoin ser visto como um ativo de nicho, afetando a sua unidade de conta, pois a volatilidade o impede de ser a régua estável que o dinheiro tradicional fornece. Porém, esse não é um defeito da moeda, mas sim do uso que a moeda tem sido submetida. Muitos o veem como o novo “ouro digital”, um refúgio contra a inflação e as manipulações monetárias. Sua força está na previsibilidade matemática, algo que nem o dólar, nem o Unit, nem nenhuma moeda estatal consegue oferecer.

Mas no fundo, o que separa o Bitcoin das moedas tradicionais é o conceito de poder. O dinheiro estatal serve ao estado, o Bitcoin serve ao indivíduo. O primeiro nasce da autoridade, o segundo, do consenso. Essa diferença filosófica é o que torna o Bitcoin uma ameaça ao status quo. Ele remove o mediador, destrói a necessidade de confiança cega e devolve ao usuário o controle total sobre o próprio patrimônio.

Referências:

https://www.ocafezinho.com/2026/01/18/brics-testa-moeda-lastreada-em-ouro-fora-do-swift-e-que-ameaca-hegemonia-do-dolar/

https://econpulse.net/34610/understanding-money-functions-types-key-characteristics/

https://en.wikipedia.org/wiki/Unit_%28currency%29

https://www.mexc.co/en-IN/news/239644

https://www.gisreportsonline.com/r/brics-payment-system/